Para entender os evangélicos

A diretora Petra Costa é a responsável por um documentário que tem feito muito sucesso: Apocalipse nos Trópicos. Nele, ela expõe o seu olhar sobre o crescimento do fenômeno evangélico no Brasil nos últimos tempos. Na verdade, o filme trata mais da eleição presidencial de Jair Bolsonaro em 2018. Nesse corte temporal, boa parte de suas conclusões são muito pertinente. Ela presta um bom serviço à sociedade ao mostrar a extensão do que está se passando no Brasil em termos religiosos e políticos. Esse é o ângulo dela.

Não podemos esquecer, ao analisar o denso documentário de Petra Costa, que ela não está fazendo sociologia, antes, está realizando um trabalho no campo cinematográfico, portanto, no campo das artes. Prestou um bom serviço aos que gostam de refletir sobre o campo da política, da religião e das tramas de poder no Brasil. Mas, está longe de esgotar tudo o que pode ser dito de um dos fenômenos mais densos e profundos da sociedade brasileira no século XXI.

Além do cinema: a necessidade de atualizar o debate

Para entender o que vem se passando nessa área é preciso ir além do filme. Em primeiro lugar tudo aquilo que está documentado e retratado ocorreu em 2018, portanto tem que ser atualizado com pesquisas mais recentes. Entre 2018 e 2025 foram anos em que a principal consequência política do fenômeno evangélico chegou ao poder e iniciou um lento processo de mudanças fortes, iniciando uma inflexão que terá grandes consequências sociais.

Então essa é a primeira reflexão sobre o filme, na nossa opinião, ele precisa ser atualizado.

A força demográfica e os princípios de fé

Em 2022 a Persona fez uma extensa pesquisa de natureza quantitativa e qualitativa que detectava um declínio do chamado “voto de cajado” – ou seja, a rejeição crescente à imposição de candidatos por líderes religiosos, muito bem representada pela imagem do Pastor Silas Malafaia no documentário – e um voto mais crítico, sem idolatria. Além disso, emergia com força um segmento invisibilizado até então: os evangélicos que poderiam ser considerados progressistas conservadores. Um perfil que rejeita pautas radicais, defendem justiça social e tendem a se tornar atores relevantes nas próximas eleições.

Portanto, se o documentário de Petra Costa foi um retrato pungente do impacto evangélico na eleição de 2018, esse fenômeno está longe de ser monolítico. Ele envolve disputas internas, tensões entre pautas morais e sociais, transformações de gênero, raça e geração. Mais do que um bloco uniforme, trata-se de um campo plural, em ebulição, que continuará a definir o rumo da política brasileira no século XXI.

João Gualberto
Mestre em Gestão e Doutor em Ciências Sociais
é sócio e consultor na Persona

 

 

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